Esutes Curso de Teologia - A Laicidade Cristã

Pr. Pedro Noia

Presidente da ComBC - Comunidade Batista Cristã, Mestre em Ciência da Educação e Doutor em Teologia na Área de Terapia Familiar.

Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros (Hebreus 13.17).

Considerando o laicismo, não como agnosticismo ou ausência de envolvimento governamental, mas como uma liberdade de escolha religiosa, uma autonomia do homem em cultuar a Deus num Estado laico, vou utilizar alegoricamente este vernáculo para caracterizar a liberdade que Deus também nos concede como cristãos evangélicos. Temos liberdade para escolhermos a parte do corpo de Cristo, o fragmento local da primitiva Igreja Universal de Jesus Cristo, fundada sobre a face da terra há dois mil anos atrás, onde vamos servi-lo e cultuá-lo com amor e alegria.

Estou convicto desta laicidade cristã, devido a diversidade de igrejas que encontramos apenas 40 anos após a morte de Cristo. João escreve às sete igrejas da Ásia, todas diferentes uma das outras. Congregações que tinham Pedro e Paulo como seus líderes fundadores, e ainda assim se manifestavam com costumes, ritos, habitualidades diferentes, qualidades e problemas também distintos. Mas todas as sete, continuavam a ser Igreja de Jesus Cristo, formada por homens e mulheres convertidos, que apesar de seus erros doutrinários, litúrgicos e sociais, pregavam a Jesus Cristo como Salvador (Lucas 11:23), e todas tinham um anjo, um líder.

Falando a crentes maduros, não a néscios, me entristeço em ver cristãos sendo insubmissos a seus líderes, murmurando em rebeldia como se fossem obrigados a permanecer debaixo de uma liderança que condenam, forçados a engolir uma comida que não acreditam ser nutritiva ou constrangidos a obedecerem ordens que julgam não ser do alto. E do outro lado, me solidarizo com líderes apascentando sem alegria o rebanho de Cristo. "isso não é proveitoso para ninguém..."

Hoje, estamos diante de um desaguar de manifestações da fé em Cristo, no que diz respeito a grupos, igrejas institucionalmente registradas, segundo reza nossas leis governamentais. Glórias a Deus por isso! Batistas, Metodistas, Presbiterianos, Assembleianos, tradicionais, ortodoxos, históricos, renovados, pentecostais, etc. São Igrejas que têm a Bíblia como cerne espiritual e a figura de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, apesar das imperfeições e desajustes, como notado também nas igrejas primitivas, descritas no livro dos Atos das Igrejas ou dos apóstolos.

Estas igrejas ou grupos, naturalmente têm seus líderes, que de acordo com o que está escrito no livro do profeta Jeremias (3.15) "Dar-vos-ei pastores (líderes) segundo o meu coração, que vos apascentem com conhecimento e com inteligência”. O próprio Senhor levanta no meio de suas ovelhas, homens, não melhores ou menos pecadores, apenas homens a quem ELE capacita e levanta para serem LÍDERES, pastores ou qualquer outro nome a que se intitulem socialmente. Sim, os pastores são iguais as ovelhas na essência humana, mas segundo Hebreus, seu chamado requer responsabilidades específicas, e por excelência episcopal (1Tim 3:1) carecem das orações, da cooperação, do cuidado e respeito de suas ovelhas de forma especial.

São esses, que além de terem seus próprios interesses, famílias, negócios e problemas pessoais, também são especialmente responsáveis por guiar a caravana, por velar, orar, interceder pelas almas, pelas vidas das ovelhas. Esses que acordam nas madrugadas para atenderem seus "filhos" em conflitos familiares, que não podem "requentar" comida para alimentar o rebanho novo, são estes que levantam recém-nascidos e sepultam os mortos, sim, visitam enfermos, inauguram lojas, aconselham, orientam, abençoam, ungem até objetos inanimados (rs), são estes que se preocupam com a segurança do prédio, com o bem estar dos congregados, que também precisam suportar os melindres e os chiliques de ovelhas em depressão, baixa auto-estima, as viciadas, as adulteras, as fujonas, as viúvas abandonadas, as órfãs, as céticas, as polêmicas, as fracas, as carentes, também, é claro, as liberais, as abençoadoras, as fiéis e todas as demais ovelhas que são levadas pelo próprio DONO, Jesus Cristo, aos apriscos locais para que sejam apascentadas, tratadas, tosadas, e protegidas.

A pergunta que faço, segundo o texto de Hebreus é:

Como estes pastores prestarão contas a Deus ? Como apascentarão com alegria ? Se existem ovelhas de Esmirna, congregando em Éfeso ? Se existem crentes que deveriam estar em Tiatira, e estão azucrinando os irmãos de Filadélfia ? Se os que estão em Pérgamo desejam estar em Sardes e os de Sardes admiram Laodicéia ?

Pregamos aos ímpios e aos incrédulos que "se o Filho de Deus nos libertar, seremos livres" (João 8:36)... então, porque muitos não desfrutam desta liberdade para cultuar a Deus em qualquer lugar, em qualquer instância e com as pessoas que julgam, por afinidades ou por aderência doutrinária, semelhantes a eles ? Sim, estamos num país laico, onde nem mesmo o governo interfere nas questões religiosas do povo, e ainda assim alguns evangélicos, cristãos, seguidores do Cristo que liberta, bramam, murmuram, se rebelam contra seus líderes e se comportam como prisioneiros em selas que outrora foram suas próprias manjedouras. Isto só pode ser uma herança romana impregnada em nossa gênese religiosa, ou um traço herdado de nossos ancestrais hebreus murmuradores... Misericórdia!

Se todos aceitamos que somos seres em constante mudança, e que algumas destas mudanças podem provocar alterações em nosso humor espiritual, não entendo porque muitos se permitem "encabrestar" ou insistem em permanecer debaixo de uma égide contraditória a sua fé, agindo com hipocrisia ou se submetendo "parcialmente" a regras estabelecidas pelos líderes do grupo socio-religioso a quem chamam de seu corpo ou sua igreja.

Se haviam 7 opções em 40 d.C., hoje existem milhares delas, de todas as formas. As carismáticas, as conservadoras, as liberais, as assistencialistas, as divertidas, as melódicas, as monumentais, as humildes, as legalistas, as missionárias, as congregacionais, as empresariais, as sem teto, as sem liturgia, as de liderança casual, informal e até, pasmem, as sem líderes.

Estimado irmão em Cristo, não seja injustamente contabilizado como um rebelde no seu aprisco, não seja visto como um lobo no meio das ovelhas, não permita que seus próprios pares o discriminem por não acatar as diretrizes de sua igreja, não fique apático, não violente sua consciência, não seja covarde se escondendo, você não é um traidor. Falo por experiência própria, pois durante minha trajetória cristã de pouco mais de 15 anos, também migrei de uma igreja para outra duas vezes, não por falta de amor a obra, ou por falta de apreço e admiração por meus líderes, muito pelo contrário, exatamente por apreciar suas convicções e saber que detinham uma consciência firmada e uma linha doutrinária absolutamente estabelecidas, por saber que não iriam negociar seus valores litúrgicos e por ver, claramente, o fruto do trabalho destes pastores, não poderia jamais, permanecer no meio daqueles irmãos, se meu "modus operandi" para conduzir a caravana, apascentar as ovelhas, tinha se distanciado das diretrizes que haviam me ensinado. Por respeito a eles sacrifiquei temporariamente minha comunhão local e por amor a IGREJA de Cristo fiz a opção de encontrar outra congregação, outro grupo de irmãos, tão pecadores como todos os demais, limitados como eu, mas para que pudesse ser mais útil, mais eficaz, mais cúmplice nos serviços do reino e sobre tudo, estar em paz e feliz.

Não estou exaurindo o assunto, nem supondo estar certo em todas os pontos aqui tratados, mas deixo esta simples reflexão que tomou meus pensamentos durante esta madrugada, para aconselhar você meu amado irmão, mesmo não sendo seu amigo mais chegado, a usufruir da LAICIDADE CRISTÃ deste país maravilhoso. Também, não estou banalizando a lealdade ou instigando a fuga de um crente de sua igreja por motivos torpes ou por dificuldades de submissão a liderança. Também não estou criando muletas para cambaleantes se apoiarem e. de forma alguma desejo promover um êxodo sazonal de crentes de um lado para outro, outrossim, almejo ver ovelhas e pastores vivendo em comunhão, pois não havendo acordo entre eles, não conseguirão andar juntos (Amós 3:3) e sobretudo, se o reino estiver loteado, dividido, ele irá sucumbir. (Marcos 3:24)

Como disse, passei por momentos de transição em minha caminhada Cristã, mas enquanto permanecia numa igreja, estava submisso a minha liderança, sem reclamar, apesar de não concordar com todas as coisas, sempre fui obediente em tudo, porque sabia que aqueles líderes, instituídos por Deus, velavam por minha alma... Talvez por estas sementes, hoje seja, por misericórdia, pastor de uma igreja tão abençoada, com ovelhas tão amáveis, cooperadoras e parceiras... Aleluia!!!

Querido, ante a ficar murmurando, sendo insubmisso ou se esquivando das normas doutrinárias da igreja onde se encontra, ou se sentindo prisioneiro, injustiçado, pressionado ou tolhido por seguir as regras estabelecidas que, de alguma forma, você ACEITOU quando se fez MEMBRO, converse com sua liderança, diga que não concorda com alguns pontos relevantes e cordialmente, abençoe o seu líder, agradeça a Deus pelo que comeu e bebeu neste aprisco e PROCURE uma das 7 igrejas do apocalipse, ou uma mais perto de sua casa. Deixe o anjo apascentar com alegria as ovelhas que, voluntariamente, com ele se anelam.

Existe uma parte do corpo de Cristo, da Igreja do nosso Senhor e Salvador, que pode estar precisando de você, dos seus dons, seus talentos, suas convicções doutrinárias. Se for onde está, sentirá paz em seu coração, se não, ore a Deus e peça a Ele uma direção, pois a igreja não muda por causa do homem, homens é que mudam quando se achegam a uma igreja.

Temos recebido com carinho muitos irmãos e irmãs em Cristo, de diversas denominações cristãs. Ovelhas que foram discipuladas, alimentadas, ensinadas e abençoadas por seus líderes anteriores. Glorifico a Deus pela vida de cada uma destes pastores, pois sei que fizeram o seu melhor. Assim também, tenho a certeza que ovelhas em que tive a honra de batizar e o privilégio de apascentar, que hoje não estão mais localmente conosco, estão abençoando e sendo abençoadas em outros apriscos, continuam crescendo na graça e na misericórdia em outras regiões, com outros costumes, outras formas litúrgicas, outros valores eclesiásticos, mas sempre com LÍDERES ESCOLHIDOS POR DEUS, afinal de contas o REINO É DELE, AS OVELHAS TAMBÉM!

Andemos em LAICIDADE CRISTÃ.

Paz seja com todos os livres em Cristo!

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