Esutes Curso de Teologia - Quando a Graça parece se Esvair

Álvaro Santos de Almeida

Bacharel em Teologia, Pós-graduado em Ciências da Religião, Mestre em Bíblia. Diretor da Esutes.

Uma das coisas que mais me afligia quando criança eram as palavras “você é café com leite”. Quem já brincou de pique–pega sabe o que é isso. Essa é uma técnica que as crianças maiores que estão participando da brincadeira, usam para que as crianças menores, que também querem brincar fiquem de certa forma, isoladas.

Se você é “café – com- leite” nada do que você faça na brincadeira, é válido. Se pega alguém, não vale; se alguém te pega, também não vale. Se mesmo assim você insistir em pegar alguém, algum “colega” vai gritar: “não vale, ele é café com leite”!

Hoje, sorrio da forma engenhosa que as crianças criaram para isolar alguém de alguma brincadeira, mas me lembro de como ficava triste quando eu era “café com leite” e de como isso deixava outras crianças tristes. Muitas vezes eu chorei por causa das palavras “café-com-leite”.

É a maneira que as crianças de minha época tinham de praticar o que Philip Yancey chama de “não graça”. É a maneira que criaram, pelo menos em meu tempo de infância e na minha rua, de isolar os mais fracos e menores.

Em meu livro “Colocando Deus no Banco dos Réus”, também falei de falta de graça e de como o mundo e a igreja estão carentes de graça. Falei de uma teologia barata que só valoriza o “ter”. Não adianta muito você “ser” uma bênção é preciso “ter” uma bênção.

Max Lucado falou sobre “As garras da graça”; David Seamands escreveu sobre “O poder curador da graça” e Philip Yancey dissertou com sabedoria sobre “A maravilhosa graça”.

Todos os grandes escritores cristãos já escreveram sobre graça e não me atreveria a tentar ser tão profundo no assunto.

Quero escrever sobre aquilo que tenho vivenciado. Os valores da igreja estão mudados e pouco se fala da graça.

A falta de graça, por exemplo, nublou e contaminou a ideia que a igreja tem de sucesso.

O tamanho do espaço físico de uma igreja, os valores de entrada dos dízimos, o número de membros e freqüência nos cultos, determinam se uma igreja é de sucesso ou não.

Esse evangelho leva o mundo a satirizar o cristianismo como uma religião de falatório e ganância.

A graça de Deus deveria bastar. Mas, ela já não é o bastante. Ele necessita vir acompanhada pelo sucesso, pela boa roupa de filhos do rei que somos e pelo excelente emprego que você também merece, porque afinal, você é filho do rei.

O evangelho da graça parece se esvair.

Observo o seio da família e constato que nela, aqueles que têm mais dificuldades de sobrevivência geralmente recebem atenção especial. Se uma criança daquela família nasce com síndrome de Down, por exemplo, ela certamente irá receber mais atenção, por causa de suas necessidades de sobrevivência. Ela receberá mais atenção que seus irmãos saudáveis.

Quase toda a teologia bíblica do Novo Testamento pinta o quadro da igreja como uma família. Na verdade a própria igreja primitiva de Atos dos apóstolos, nos leva não poucas vezes a crer que o que Deus tencionava para a igreja é que ela se parecesse com uma família, onde os mais fortes voltam suas atenções para os mais fracos e onde os que têm mais status usam esse mesmo status em benefício de seus irmãos (At 4.33;34 ).

Em resumo, se Deus desejava que a igreja se parecesse com alguma instituição terrena, penso que essa instituição seria a família.

Me decepciono, porque como disse Yancey, numa família de verdade o fracasso não cancela nossa membresia. Na igreja também não deveria ser assim. Sou membro de minha família terrena, sendo eu rico, pobre, bonito ou fracassado segundo os padrões de um mundo secularizado e materializado. Mas, se há uma ceia de natal no final do ano estarei lá porque sou membro daquela família e meu sucesso ou fracasso não importará. Era assim na igreja primitiva.

Ainda quero crer que a igreja tem a capacidade de ser um farol de graça, embora ela às vezes falte.

Porque me relaciono com você? Apenas porque pode me dar algo em troca?

Num mundo onde o que conta é minha posição social, meus cartões de crédito e o carro que dirijo, a igreja tem de ser um referencial de graça.

Quando chego na igreja não quero ser olhado e tratado segundo aquilo que tenho, pois aquilo que tenho pode não ser muita coisa. Posso não ter um carro ou não ter um emprego tão bom, mas a graça que emana da igreja de Cristo tem de garantir que serei tratado como um irmão legítimo e não bastardo, que farei parte da família e que terei o mesmo tratamento daquele que tem o que eu não tenho, um bonito carro do ano, bom emprego ou belos olhos azúis.

Numa família essas diferenças e desvantagens tornam-se sem importância. Na igreja também deveria ser assim.

Se a igreja não consegue se focar na graça de Deus, ela é só mais uma instituição e não uma família de verdade. Se ela não consegue ser uma família então perde o sentido. Então ela não vive aquilo que Jesus quis que ela fosse e vivesse.

Estou triste e cansado por ver um número tão grande de pessoas que se afastam da igreja porque lá não encontraram graça ou não foram acolhidas como deveriam. Aliás, já é maior o número de desviados da igreja em nosso país, do que o número de membros delas.

A falta de graça é assim, ela traça uma linha uma divisória e imaginária entre as pessoas.

Gosto das palavras de Yancey: “Olho à minha volta, aos Domingos, para as pessoas que enchem os bancos da igreja e percebo o risco que Deus assumiu”. Por alguma razão Deus agora não se revela ao mundo em uma coluna de fogo ou de fumaça, mas pela coleção miscigenada de pessoas que compõe a minha igreja e todas as outras que se reúnem em nome de Deus”.

Já se sentiu como um estranho no ninho em festa de parentes dos outros, onde só quem são servidos são os parentes do dono da festa e você que é de fora fica ali, estatalado, por mais de uma hora sem beber nem água?

Por conviver muitos anos com pessoas em igrejas, percebo que muitas pessoas têm esse mesmo sentimento quando entram em uma igreja onde a graça de Deus é escassa, como um estranho em festa de parentes do noivo ou da noiva. Ninguém te serve nem um copo de refrigerante, afinal você não é parente.

Deus apostou em você como farol de graça. Somos eu e você. Aqui e agora seja um farol da graça.

Deus apostou alto em mim e em você, Ele assumiu o risco de confiar em nós. Não o desaponte, porque ele conta com você.

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